Meu novo cargo na Jambô: Diretora Criativa

Após 4 anos como editora-chefe da Jambô, deixo o cargo para assumir como diretora criativa, com o objetivo de levar nossos universos para outras mídias. Esta é uma retrospectiva e bastidores de tudo que aconteceu.

Karen Soarele

8/21/20268 min read

Quem viu o anúncio no Instagram já sabe: estou deixando o cargo de editora-chefe da Jambô para assumir como diretora criativa. Estou com a expectativa a mil! Mas também sentimentos conflitantes. É difícil deixar um cargo que para mim foi tão intenso. Então, aproveito esse momento para fazer uma retrospectiva para vocês, incluindo bastidores que vocês talvez não saibam.

Como me tornei editora-chefe

Tudo começou com o nascimento da Gaia. Quando estava prestes a entrar em licença-maternidade, entreguei o cargo de gerente de marketing ao Tiago Guimarães. Eu também estava concluindo a escrita de O Enigma do Sol Oculto, então foi um período de correria! Tudo tinha um prazo inadiável: o dia do parto.

Logo que ela nasceu, passei por um período de privação de contato humano que eu não recomendo a ninguém. Quem aí nunca ouviu falar de “puerpério”, fica a dica: pesquise antes de ter filho. É horrível. Você sobrevive, mas a sensação é de que deixou de existir para o resto do mundo. Ainda mais pra mim, que sempre fui uma pessoa cheia de projetos e que adora trabalhar. Sentia falta de estar cercada de gente, levando conteúdo para os leitores.

Para piorar, eu sabia que as coisas estavam pegando fogo na Jambô, e me sentia inútil por estar afastada. Voltei logo que as obrigações de mãe me permitiram, e descobri que o Gui estava mais sobrecarregado do que nunca, acumulando funções de escritor, editor, editor-chefe e diretor. Até tinha ajuda, mas estava longe de ser suficiente.

Era para eu ter voltado como gerente de projetos, para ter uma carga de trabalho mais leve. Porém, vendo tudo que estava acontecendo, falei para o Gui: “Você precisa que alguém assuma o papel de editor-chefe. E esse alguém sou eu”.

Primeira missão: salvar o Natal!

Quando a gente manda arquivos pra gráfica, leva pelo menos um mês para a gráfica nos entregar o livro impresso. Paralelo a isso, não se lança produto novo nos meses de janeiro e fevereiro. A última data possível para se lançar um livro é no comecinho de dezembro, o que significa que a data-limite para enviar os arquivos prontos para a gráfica é finzinho de outubro. Ou seja, o lançamento que não for pra gráfica em outubro, terá que esperar para ser lançado só em março do ano seguinte. Eu assumi o cargo de editora-chefe em setembro de 2022. Minha primeira atitude: ver quais livros estavam dentro do cronograma e quais perigavam não sair. Descobri que Ordem Paranormal RPG, embora tivesse passado por um gargalo dolorido, já estava encaminhado. Porém, o trabalho extra colocado em Ordem impactou outros projetos. Com isso, havia dois títulos importantes dos quais a equipe já havia desistido: Fim dos Tempos Arco 1 e A Lenda de Ghanor RPG. Nesse momento, decidi que não iríamos adiar o lançamento desses dois livros. Eles iriam sair a tempo da CCXP!

Não foi fácil! Nem para mim, nem pra equipe que trabalhou nesses títulos. Primeiro, organizei e distribuí as tarefas do Ghanor. Enquanto a equipe do Ghanor fazia os textos e ilustrações que faltavam, fui diagramar o Fim dos Tempos e contatar cada um dos fanartistas para pegar autorização do uso das artes. Foram muitas etapas de revisão e rediagramação que levavam a reedição de texto: uma trabalheira enorme, sem a qual não seria possível alcançar o nível de qualidade que uma publicação de Tormenta demanda. Quando finalmente Fim dos Tempos ficou pronto e mandei para a revisão final, pude me voltar para o Ghanor. O Gui já tinha diagramado metade do livro, mas é um livro enorme, então faltava muita coisa. Foi nessa época que entramos no “Feitiço de Áquila”. Ele passava a noite inteira diagramando enquanto eu dormia. De manhã, eu levantava, pegava o arquivo dele e seguia com a diagramação enquanto ele ia dormir. Foi uma semana na qual só nos víamos para dar boa noite e transferir arquivos. Tudo isso ainda cuidando de uma bebê de sete meses.

Foi a prova de fogo. Mas valeu a pena. Os dois livros saíram a tempo da CCXP e se tornaram sucessos instantâneos! Ganharam prêmios e até hoje são muito elogiados.

Reorganizando o editorial

Nos anos que se seguiram, meu maior objetivo foi evitar que uma correria dessas acontecesse de novo. Isso exigiu: uma investigação profunda para descobrir quais eram nossos gargalos, um planejamento realista em termos de datas, a reorganização completa da equipe editorial, a contratação de mais funcionários, o treinamento dessas pessoas, a criação de processos e documentações — tudo isso ENQUANTO mantínhamos o cronograma de lançamentos girando. A editora não pode parar pra gente reorganizar as coisas, então temos que trocar a roda com o carro andando.

A Jambô vinha de um período de rápido crescimento, principalmente no que diz respeito à quantidade de funcionários. Porém, quando uma empresa cresce muito rápido, as coisas tendem a ficar um pouco bagunçadas. Então, precisei reorganizar quem fazia o quê, delimitando as funções de cada pessoa. Hoje, temos uma equipe bem organizada, com processos que melhoram a cada dia e um alto nível de controle de qualidade.

Uma das principais atitudes foi parar de ceder à pressão por datas. Se o livro ainda nem começou a ser feito, não temos como saber quando estará pronto. Principalmente quando dependemos de um autor de fora da editora (ou até de fora do país!), nossa resposta sobre datas passou a ser a mais sincera possível: não sei. Afinal, não temos como nos comprometer por algo que está fora do nosso controle. Tomamos muito na cabeça até aprender isso.

Ao mesmo tempo, tomamos as rédeas sobre aquilo que está sob nosso controle. Passamos a fazer FC ou pré-venda apenas de livros em fase avançada de produção. Às vezes os fãs ficam ansiosos, perguntando cadê o FC ou a pré-venda. É nessas horas que precisamos respirar fundo e transmitir paciência. Passamos a divulgar apenas as datas que temos confiança de conseguir cumprir, sem que ninguém tenha que abdicar de sua vida pessoal para isso.

Hall das conquistas

Mas não só de pisar no freio se fizeram esses quatro anos em que fui editora-chefe. Pelo contrário. Nesse período, nossa quantidade de lançamentos por ano mais do que dobrou!

Entregamos seis grandes FCs com qualidade e pontualidade, lançamos toda a linha de Ordem Paranormal, trouxemos novas linhas internacionais, com destaque para Daggerheart, Discworld e Fabula Ultima, renovamos os estoques de incontáveis Fighting Fantasy que estavam esgotados e trouxemos novos volumes, lançamos a Revista Tormenta20 e os Arquivos Secretos, duas novas assinaturas mensais para os fãs sempre terem conteúdo fresquinho, e deixamos tudo preparado para o lançamento de ainda mais uma revista, dessa vez em inglês, marcando nossa estreia oficial no mercado internacional. Ao todo foram mais de 150 livros inéditos, sem contar as revistas, reimpressões, kits introdutórios gratuitos, dados, mapas, camisetas e todo tipo de cacareco que a gente ama! O mais legal em estar à frente de um time editorial é poder dizer: “Eu queria muito que existisse TAL coisa… quer saber, vamos fazer nós mesmos!”

Spoiler dos livros de setembro

Agora em setembro, estamos preparando três lançamentos que são extremamente importantes para mim em nível pessoal. O Bestiário do Medo foi uma ideia que eu tive para suprir a necessidade dos fãs de Daggerheart, executada com primazia pelo editor José Cerqueira com sua equipe de escritores e artistas, e será o último livro em que sou creditada como editora-chefe. Fico feliz em fazer minha saída em grande estilo! Já Kadath: A Jornada Onírica, de Lovecraft, foi importante fonte de inspiração para O Enigma do Sol Oculto. É um livro difícil de traduzir, e para dar conta do recado chamamos o Jaime de Andruart, que tem portfólio de tradução de poesia, com a edição experiente de JM Trevisan. Olha, eu digo pra vocês: o texto ficou sensacional! E a capa do livro também ficou lindíssima. Nesse livro, o Tiago Orib já é creditado como editor-chefe. Confesso pra vocês que dá um ciuminho… mas é um crédito merecido, considerando o tanto que ele trabalhou junto nesse livro! E o resultado compensa todo o esforço. Para encerrar, o terceiro lançamento será a StormQuest! Ansiosíssima por esse e pelos próximos que vêm na mesma pegada. Representam um passo muito importante na história da Jambô.

Enfim, um mês de muitas emoções! Porém, são emoções que tenho que ir transferindo para o Orib. Afinal, terei meus próprios desafios pela frente.

Novos projetos como diretora criativa

Meu novo cargo como diretora criativa não é uma coisa estática. Meu objetivo é explorar outras mídias e eu sei muito bem qual é o meu desejo: videogame. Porém, outras mídias obviamente vão além de videogame, e acabei também me envolvendo em editais de adaptação dos nossos livros para filmes e séries. Calma, pessoal. Muita calma! Esse tipo de projeto demora anos para sair, então não se empolguem demais, rsrsrs. O que quero dizer é que muito do que farei depende das oportunidades que surgirem. Ou seja, o futuro só o tempo dirá. Torçam por mim e pela editora!

Outras mil coisas rolando

Além de tudo isso, tenho também dedicado grande parte do meu tempo na reforma da nova Jambô. O quê? Eu não disse antes que estamos em reforma? Pois é, queria ter contado, mas é tanta coisa rolando ao mesmo tempo que não consegui! Acontece que, com tantos projetos novos, a equipe continua crescendo bastante e já não cabemos mais na nossa sede! Então, compramos o imóvel ao lado e, tal qual a Tormenta, estamos expandindo! Então, tenho me dedicado a vistoriar a obra, revisar a planta, escolher itens de acabamento, como lustres, tintas e revestimentos e planejar os novos móveis. Isso consome tempo, mas é muito divertido e está ficando tudo lindo! Mal vejo a hora de nos instalarmos nos espaços novos, mas ainda vamos ter que passar por muita poeira de gesso antes disso.

Ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, tive problemas com a Gaia que resultaram em uma mudança de escola — porque vida de mãe não espera as coisas estarem tranquilas no trabalho. Mas agora as coisas estão se ajeitando, então vai dar tudo certo!

E minha participação no Nerdcast RPG? Gente, isso tá sendo tão legal! E os prêmios que ganhei no Diversão Offline? E a nossa campanha caseira de Ordem Paranormal? E a contagem regressiva para a Nerdcon? E o livro secreto que estou escrevendo junto de um dream team da Jambô? É tanta coisa rolando, que acaba sendo impossível falar de tudo! De vez em quando eu posto alguma coisinha no Instagram, então sugiro me acompanhar por lá. Mas, mesmo lá, não é sempre que consigo, porque as coisas andam realmente bem agitadas!

Para encerrar…

Como diria o Leonel Caldela, já estou tergiversando. Fato é que eu AMEI esses quatro anos loucos em que fui editora-chefe. Me orgulho de cada conquista! Acredito que tornei a Jambô um lugar melhor: com mais lançamentos, mais pontualidade, ainda mais qualidade nas publicações, mais bem-estar para os membros da equipe e mais novidades empolgantes para os fãs. Deixo o cargo em boas mãos e rumo em busca de águas inexploradas.

Muito obrigada a todos que nos acompanharam nesses 8 anos em que estou na Jambô (somando o período de editora-chefe e os cargos anteriores)! Tanto aos que estão aqui há um tempão quanto aos que chegaram recentemente. Peço que continuem acompanhando e torcendo por nós! Tudo isso é muito legal, mas só faz sentido porque fazemos para vocês, e só é possível com o apoio de vocês. Que o futuro traga a todos nós ainda mais realizações.

Mais além!

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